
Queridos pais e amigos,
Deixam-nos hoje escutar convosco a ordem de Jesus: “Levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”? Na verdade há angústia sobre a terra. As nações estão na angústia aguardando o que ameaça o que mundo habitado. Luc. 21,23…28 Mas são Paulo reconforta os homens no seu desânimo: “Estou convencido que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós. A criação anseia pela revelação dos filhos de Deus. Ela geme e sofre as dores de parto até ao presente.” Rm. 8,18. 23
Nesta festa de Natal, que é a festa da vinda do Salvador dos homens, aparecido na terra como um Menino, no realismo cruel dos acontecimentos que sacodem a família humana, as palavras de luz do Cardeal Lustiger convidam cada um a contribuir à salvação dos homens abrindo-nos ao Dom do Amor:
“O homem, criado à imagem e à semelhança de Deus, é feito para Deus, para viver com Deus ; mas cego pelo seu próprio pecado procura às apalpadelas uma luz para entrever. A Humanidade sofre com muitos males, e em primeiro lugar com os que estão ligados à cegueira da liberdade e da inteligência.
Porque é que os homens são homicídas? Porque é que mentem uns aos outros? Porque é que são dominados pela vontade de poder? Não podemos enumerar todos as opacidades da condição humana. No entanto, não se pode fazer uma escolha entre os homens e dizer: “Há bons e há maus. Eliminemos os maus, só ficarão os bons”. Porqué? Porque uma parte da opacidade existe em cada um de nós ao mesmo tempo que a seu desejo da Verdade.
Mas não há libertação da humanidade sem perdão, sem misericórdia, sem redenção. Qualquer pecado é um atentado ao Amor. Qualquer perdão é un Amor recriado. Qualquer vida tem um preço infinito. Este mundo é magnifico quando o olhamos através deste mistério de Amor e de Dom.”
É o que sem cessar nos lembra o nosso Papa João Paulo II, peregrino infatigável que, em actos e em verdade, à semelhança do seu Mestre, atesta que não há maior amor que dar a vida pelos que amamos. Escutemo-lo dirigir estas palabras aos jovens do Casaquistão:
“Quem sou? Qual é o sentido da minha vida? Qual é o meu destino? A minha resposta é muito simples, mas de um grande alcance. Tu és um pensamento de Deus. Tu és uma batida do Coração de Deus. Afirmar isto quer dizer que tu tens duma certa maneira um valor infinito, que tu contas para Deus na tua “individualidade insubstituível.”
Às portas do ano novo, à maneira de votos, não poderíamos deixar-nos interrogar pessoal e mutuamente por estas palavras de S.S. João Paulo II?
No momento em que as religiões, as culturas, as civilizações se chocam, estas dramáticas conflagrações pressionam-nos a aceitarmo-nos uns aos outros nas nossas conviçcões diversas, procurando juntos a plenitude da verdade e do Amor.
“Un mundo antigo está a passar. Un mundo novo já nasceu.”
Na Familia monástica de Belém, da Assunção da Virgem Maria e de São Bruno, este ano de 2002 que começa é iluminado pelo IX Centenário da passagem de São Bruno da terra ao céu, a 6 de Outubro de 11O1.
ANo começo deste ano jubilar, alguns dias depois da festa de São Bruno, os monges reuniram-se em Capítulo geral. Na unanimidade dos corações, elegeram o irmão Silouane como Prior dos Monges de Belém.
Em Espanha, un mosteiro de monges começa a ser fundado nas proximidades do mosteiro de monjas Santa Maria Reina de Sijena, como primícias duma próxima fundação na diocese de Barbastro.
É à sombra da paternidade espiritual de são Bruno que três novos mosteiros de monjas vêem o dia: um em Portugal na diocese de Setúbal, os dois outros em Espanha nas dioceses de Jerez e de Toledo.
Nestes dias difíceis, muitos de vós pedem novidades dos dois mosteiros de monges e de monjas de Bet Gemal em Israel. Numerosos são os amigos e benfeitores que os ajudam com a sua oração e o seu sustento material. Graças a Deus, os monges e as monjas permanecem numa grande paz no fim deste ano 2001. Eles recebem esta responsabilidade de serem no coração da Igreja de Jerusalém, no silêncio e na solidão, mas também na amizade em relação aos seus irmãos judeus e muçulmanos, artesãos de paz e de unidade entre os filhos de Abraão que habitam a Terra Santa onde Deus visitou o seu povo, onde estabeleceu a sua morada. Eles escutam S.B. o Patriarca Michel Sabbah chamar as ovelhas do seu rebanho a uma radical conversão, sem a qual nenhuma esperança de paz entre os homens é possível: “Os efeitos do terrorismo podem manifestar-se ao longe, mas as raízes estão em nós. É inútil ferir ao longe se não se tem a coragem de desenraizar as causas que estão nas nossas consciências ou nas nossas estruturas sociais. O terrorismo batido ao longe renascerá se as causas que o produzem, e que estão em nós, permanecem inalteráveis.”
As monjas do mosteiro de Livingston Manor, na diocese de Nova Iorque, vivem numa compaixão silenciosa com o povo americano tão dolorosamente provado.
Graças ao auxílio que recebemos da vossa parte vários trabalhos estão em curso nos nossos diferentes mosteiros. As igrejas dos mosteiros do Quebéque, dos Estados-Unidos e da Lituãnia podem ser edificadas. Na Bélgica, o grande claustro, dez novos ermitérios e a fachada da igreja puderam ser acabados antes do inverno. No Chile, de ermitério em ermitério, um claustro de solidão constitui-se. Na Polónia, um claustro pequeno de cabanas pôde ser feito antes dos frios grandes e da neve, permitindo às monjas de melhor cumprir a sua vocação de discípulas de são Bruno. Em Itália, a sabedoria de vida de são Bruno inscreve-se também cada vez mais na topografia do mosteiro e a implantação de um claustro grande prossegue, permitindo a numerosas monjas de viver, rezar, trabalhar em solidão. A consagracão da Igreja de Lourdes teve lugar a 25 de Março de 2001. O projecto de um claustro de solidão está actualmente em estudo. Na Alemanha, o mosteiro de Marienheide deixou o lugar da sua primeira implantação para receber na diocese de Fulda um espaço e condições de silêncio mais propícias à oração solitária. Nos Estados Unidos de agora em diante há ermitérios que permitem acolher os que desejam rezar na solidão e participar na liturgia do mosteiro.
Por ocasião desta carta gostaríamos de agradecer com uma maravilhada gratidão todos os que de entre vós, por todo o mundo, tiveram iniciativas de amor para ajudar-nos espiritual e materialmente, todos os que contribuiram na edificação dos mosteiros dando as suas forças, a sua ajuda financeira, o seu tempo, a sua competência, a sua generosidade, a sua criatividade cheia de delicadeza. Em tudo isto somos devedores para com muitos de vós, de uma dívida de amor e de oração que não se pode medir.
Esta carta permite-nos também pedir a cada um dos que receberem esta mensagem de nos conceder o seu perdão por tudo o que, da nossa parte não é suficiente transpar ência da Luz do Evangelho realmente vivido, nos nossos mosteiros e em cada uma das nossas pessoas.
Neste segundo ano do Terceiro Milénio possamos nós nos reconhecer mutuamente como pessoas únicas e insubstituíveis, infinitamente dignas de respeito e de atenção de amor, quaisquer que sejam as nossas diferenças de origem, de cultura, de mentalidade... Então, porque não receber o apelo a constituir juntos esta humanidade nova contemplada no Menino de Belém, que é também Aquele que não cessa de vir em cada uma das nossas vidas e cuja vinda está próxima? Com a Virgem Maria, com toda a Igreja, na fé e na adoração, não podemos apressar a sua Vinda?
Maranatha! Vem Senhor Jesus!
Os monges e as monjas de Belém da Assunção da Virgem Maria e de São Bruno na festa da Natividade de 2001.