
Queridos Pais e Amigos,
Connosco trazeis seguramente esta pergunta velha como a Bíblia:
“Sentinela, onde vai a noite?” A noite da violência, do ódio, da escravização do homem pelo homem, sob todas as suas formas.
Sim, ouve-se falar de guerras, de atentados e de esperanças de paz que não resultam e, “como no tempo de Noé, como-se, bebe-se, festeja-se”. Ouve-se falar de esforços enormes pela unidade, e de acordos impossíveis, e, “como no tempo de Lot, procura-se poupar a sua vida”.
Ouve-se falar de busca de concórdia entre os homens e assiste-se, muitas vezes, a uma destruição do homem, centrado sobre os seus próprios interesses ou sobre os seus prazeres imediatos, “e, como no tempo de Lot, compra-se, vende-se, não se duvida de nada”
Ouve-se falar da defesa do mais fraco e sabe-se que, por vezes, ele é utilizado em proveito do mais forte e do mais rico económica, social, militaremente, e, “como no tempo de Lot, constroem-se, planta-se, tem-se tempo para ajuntar as suas coisas”.
Ouve-se falar de amor e, com efeito, muitos actos de amor florescem e dão frutos sobre a superfície desta terra atormentada, actos que brotam do coração das pessoas humanas que não cessam de procurar o seu verdadeiro bem. No entanto, muitas vezes, domina o medo que impede o amor de ir até ao fim.
Na realidade, espera-se desesperadamente Alguém. Alguém que console, Alguém que esteja presente no isolamento mais profundo, Alguém que faça justiça pelo Amor para lá da vingança, Alguém que perdoe, Alguém que meta a sua alegria na verdade, Alguém que discirna o bem do mal na liberdade de quem não procura o próprio interesse, Alguém que faça a paz, Alguém que dê a sua vida gratuitamente sem esperar nada em troca, Alguém cujo Amor é longanimidade, Alguém cujo Amor jamais passará, Alguém que ame até morrer, Alguém que ame até dar a vida pelo seu amigo, Alguém que lhe traga a verdadeira Felicidade.
Será que existe para nós uma fórmula mágica, face aos grandes desafios do nosso tempo? — questiona o nosso Papa: “Não. É uma Pessoa que nos salvará e a certeza que Ela nos inspira: Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo. Não se trata de inventar um programa novo, porque o programa já existe… É o próprio Cristo que nos chama a conhecê-Lo, a amá-Lo, a imitá-Lo para viver n'Ele a Vida Trinitária e para transformar com Ele a história, até à sua plenitude na Jerusalém celeste.”
Jesus, aquele que esperamos no céu da história, já está connosco, e em nós, até ao fim do mundo. Ele convida-nos hoje a segui-Lo com uma tal necessidade de coerência, para que, segundo a expressão de São Paulo, nos tornemos “outros Cristos”.
Assim, diz-nos ainda o nosso Papa João Paulo II: “Seguir a Cristo dá-nos a graça de olhar o futuro com confiança. Sabemos, com efeito, que o mal está desde sempre no coração do homem, e que é somente quando o homem é encontrado por Cristo e que se deixa conquistar por Ele, que se torna capaz de derramar a paz e o amor no seu redor”.
Hoje, qual de nós quer deixar-se identificar a este Cristo “que é a nossa Paz, a este Cristo que dos dois povos fez um só, que destruiu o muro da inimizade que os separava, a este Cristo que criou na sua Pessoa os dois num só Homem Novo, a este Cristo que, num só Espírito, nos dá acesso junto ao Pai”.
Face à angústia do mundo, não se trata, segundo as palavras do Cardeal Lustiger (no seu livro A promessa) “de tomar partido e de agravar a cacofonia mundial, mas entrever estes riscos apela a que cada um se empenhe a si próprio mais profundamente na oferenda da sua vida, para ultrapassar esta provação. Neste combate, a oração mais escondida, desconhecida de todos é necessária à respiração da Igreja, para que ela acolha a escolha de Deus, e Lhe responda fielmente”.
Sim, face à angústia do mundo, não se trata de partir decididamente de Cristo, de tomar definitivamente partido por Cristo? Não é isso a Igreja no seu Mistério Único? Mistério de um Rosto escondido no coração do mundo, tornado tão visível e reconhecível entre todos, e por isso, apesar das piores zombarias e contradições, que Ele possa fazer a paz e a unidade, uma paz que o mundo ignora, uma unidade que só Deus pode dar. Um Deus que é apenas Amor.
“O futuro pertence a Deus, mas a nossa missão é fazer amadurecer o tempo, e de trabalhar para a transfiguração da humanidade. Então a união virá, será um milagre, um novo milagre na história. Quando? Não podemos saber, mas devemos preparar-nos. Porque um milagre é como Deus: sempre iminente.” Patriarca Atenágoras
A cada um dos nossos amigos que lerão esta mensagem gostaríamos de desejar os votos mais sinceros de felicidade, votos cheios de amor e de verdade, quer dizer, cheios da Presença de Cristo e da Sua Mãe Puríssima.
Da parte dos 32 mosteiros que constituem a nossa Família monástica na Igreja, mil razões podem ser invocadas para vos agradecer tanta fidelidade a amar-nos, a aconselhar-nos, a acompanhar-nos, a ajudar-nos, a alimentar-nos, a fim que, juntamente convosco, sirvamos o mesmo Cristo e a mesma Igreja.
Agradecemos o facto de serem os servos fiéis e afectuosos, aqueles que o Senhor Jesus louva e aos quais deseja dar a sua própria Alegria.
Quanto a nós, segundo as palavras de nosso pai São Bruno, “nós coramos por permanecer inertes e negligentes na miséria dos nossos pecados”, e pedimo-vos que nos perdoem as nossas incoerências e nossas indelicadezas, as nossas faltas de escuta e de atenção amorosa, que pudessem ter ferido os vossos corações e desiludido as vossas espectativas.
No entanto, cada um de vós, cada uma das vossas famílias, todos aqueles de quem sois responsaveis nas vossas vids de homens e mulheres infinitamente amados de Deus, as vossas felicidades e as vossas alegrias, os vossos sofrimentos, o peso, muitas vezes demasiado pesado das vossas provas, estão no centro da nossa intercessão.
No silêncio e na solidão que caracterizam a nossa vocação na Igreja, estais presentes como dons preciosos a oferecer ao Pai Eterno.
Um novo céu e uma nova terra se preparam, um mundo antigo está a passar, a nova Jerusalém já se edifica, cada um de nós é uma pedra, cada uma no seu lugar. Não, a nossa fé não é vã, o Vencedor está no meio de nós, “Deus connosco”, “Emanuel”, “Alfa e Ómega”, “Princípio e Fim”. Verbo feito Carne da Virgem Maria, por Ela e com Ela Ele faz de nós um só Corpo e uma só Alma capaz de congregar para Ele todos os nossos olhares e ouvi-Lo dizer-nos: “A vossa Pátria está nos céus”, enquanto que o Seu Espírito murmura em nós como uma Água viva: Vinde todos para o Pai.
Os monges e as monjas de Belém, da Assunção da Virgem e de São Bruno
Na Solenidade da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo do Ano 2002