NATAL 2003

Queridos Pais e Amigos,

 

«Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo que nos abençoou com toda a espécie de bençãos espirituais em Cristo. Foi assim que Ele nos elegeu em Cristo antes da z do mundo para sermos santos e imaculados na Sua Presença no Amor.» Ef.1.

Que poderia então acontecer para que este chamamento de Deus à santidade, dirigido a cada um de nós, desde toda a eternidade, seja escutado hoje mais do que ontem e do que antes de ontem? Que poderia então acontecer para que hoje reconheçamos plenamente a realização da nossa verdadeira identidade de homem? Que poderia então acontecer para que a santidade não seja mais a piedosa aventura de alguns “heróis místicos” do cristianismo, por vezes admirados, outras ignorados e ainda outras postos em ridículo?

Seria necessário, portanto, que o mal, sob todas as suas formas —a violência, o ódio, a injustiça, o amor pelo dinheiro, o medo, a insegurança permanente— cresça para que destas trevas nasça e renasça, até à Plena Luz, O Único Santo, Jesus Cristo, oferecido à humanidade à qual nós pertencemos, como Chave de todos os mistérios de Deus e do homem, do cosmos e da história? Jesus Cristo, na Sua Pessoa reconhecida e recebida cada vez mais pelo coração do homem como única resposta de Amor, de Verdade e de Paz. «A história do homem atingiu o seu cume no Desígnio de Amor de Deus —afirma o nosso Papa João Paulo II—: Deus entrou na história da humanidade e, como Homem, tornou-se seu sujeito, um entre milhões sendo no entanto o Único. Pela Encarnação, Deus deu à vida humana a dimensão que Ele queria dar ao homem desde o seu primeiro instante, e Ele deu-lha de uma maneira definitiva, como só Ele é capaz, segundo o Seu amor eterno e a Sua misericórdia, com toda a liberdade divina». João Paulo II, Red. Hom.

Sim, em Jesus a história do homem encontrou a sua plenitude. Mas onde está a história de Jesus na vida dos homens? Onde está a história de Jesus na vida dos Seus "santos em caminho" que somos todos nós?
Este chamamento à santidade que se chama Jesus Cristo, que é o apelo irresistível do Seu amor feito a cada um de nós implica, é verdade, uma custosa inversão de prespectiva. A pre spectiva de toda a vida humana é de agora em diante invertida pela vinda do Verbo feito carne: já há mais de 2000 anos, um Homem caminha a contra corrente da economia dos homens. Um Homem da Galileia vem cantar as leis de uma alegria e de um reino pouco invejáveis, e no entanto as únicas verdadeiras. “Bem aventurados os pobres, é deles o Reino dos céus”. Um Homem que, em Jerusalém, consomou esta ecónomia do malogro morrendo sobre a cruz como um malfeitor, deixando confundir a Sua inocência com a pior das blasfémias. Um Homem que é Deus, que sai vivo do túmulo da morte sem que ninguém sobre a terra saiba o caminho porque Ele Só é Caminho. Um Homem-Deus, e, seguindo-O, milhões de homens, a sua Igreja, instigadores de um caminho estreito e apertado que conduz à Vida, face a caminhos largos e espaçosos que conduzem à perdição.

Se nós podessemos, neste tempo bendito que chega, darmo-nos a prenda de deixar de nos fazer crer mutuamente no “pai Natal” ; no pai Natal dos nossos paraísos artificiais, das nossas falsas seguranças, dos nossos “sites virtuais” de alegria e de “controlo”. Sim, deixar de crer no pai Natal do ter e do poder, e, fazermos uns aos outros, o dom gratuito de Jesus Cristo.

Levantemos os olhos, os campos do mundo estão brancos para a colheita de uma humanidade nova ainda mais bela do que a que a precede. Ela já se ergue como uma promessa em milhões de jovens vidas de todas as raças, línguas, povos e nações, vulneráveis, sedentas da Vida Divina oferecida pelo Único Homem-Deus.

Temos a sorte de viver num século em que o cristianismo se aprofundou autenticamente. Através da história da Igreja que é a história dos seus santos, a nossa fé foi purificada das falsas imagens de Deus e do homem. A imagem do Deus de uma cristandade fechada e a imgem do homem de um humanismo fechado, estão a ser ultrapassadas: Deus Plenitude de Luz, Ele mesmo constantemente crucificado na sua Igreja sobre todo o mal do mundo e ressuscitado, não cessa de nos dar o poder da Verdadeira Vida. O Cristão do século XXI é chamado a confessar com ainda mais força e convicção o mistério da Divino-Humanidade. Segundo as palavras de um amigo da Igreja do Oriente.

Nós dirigimo-nos para um novo encontro entre Deus e o homem, onde este é convidado a «entrar em Cristo com todo o seu ser para se encontrar a si mesmo. Pois Cristo uniu-se ao homem, a cada homem sem excepção, na realidade absolutamente única do seu ser e da sua história pessoal.» João Paulo II, Red. Hom.

Assim, em Deus, Luz para além de tudo, o homem eleito em Jesus Cristo antes da fundação do mundo e salvo por Ele, pode reconhecer o seu verdadeiro cumprimento.

Caríssimos pais e amigos, aceitariam que neste Natal nós não tivessemos nada a oferecer-vos senão Cristo, um Homem que é Deus, um Deus que é Homem? Aceitariam que Ele seja o Único desejo de felicidade que nós vos fazemos para este ano novo: Jesus Cristo, única resposta a toda a procura de verdade, de amor e de paz?

Alguém pode conduzir-nos a Ele pela doçura e a profundidade da sua adoração: a Sua Mãe Puríssima, a Virgem Maria, sempre proposta à fragilidade da nossa fé para «reanimar em nós o que em nós resta da vida que desfalece» Ap. 3, 2. Como outrora em Belém, Ela é sempre a mulher que dá à luz no deserto a nova Humanidade do seu Filho Bem-Amado: a Igreja dos últimos tempos.

E uma vez que Ela convida os monges-pecadores que nós somos a participar por vocação à sua solidão parturiente face a cada pessoa humana, é à sua maternidade infinitamente amante que cada um dos membros da nossa Família monástica vos confia. É na sua intercessão toda poderosa junto de Deus, que depomos o peso dos vossos pedidos, das vossas preocupações, das vossas inquietudes e dos vossos sofrimentos. Será Ela ainda quem se fará interprete junto de vós da nossa profunda gratidão, que por nós mesmos não poderemos jamais vos exprimir. Que Ela seja pela sua Presença junto de cada um de vós o nosso OBRIGADO vivo e permanente. Que Ela seja também o nosso pedido de PERDÃO por tudo aquilo que a nossa dissemelhança de Cristo vos feriu nos vossos corações e nas vossas vidas.

Convosco queremos participar neste novo olhar sobre o mundo, convosco queremos decifrar através de todos os acontecimentos das nossas histórias de homens, das nossas preocupações de homens, mas também das nossas alegrias de homens, o Único Acontecimento Jesus Cristo.

Este Acontecimento não está atráz de nós mas dentro do nosso tempo e das nossas vidas. Ele é aquele "Oitavo Dia" que já não tem ocaso. Este Acontecimento não é uma fuga para um universo surealista de pura ficção, Ele é este novo Céu e esta nova Terra cuja aurora já se levantou sobre o mundo.

Este “Acontecimento Jesus Cristo” não vem do exterior e não se poderia dizer: “ei-Lo aqui, ei-Lo ali”, Ele é “o Reino dentro de nós”. Cristo ontem e hoje, Cristo tudo em todos; Ele em nós e nós n'Ele, Ele a Cabeça que nos reune num único Corpo pelo derramar da Sua Energia divino-humana. Ele em nós, nós n'Ele na unidade de um único Filho Unigénito que vem do Pai, que está na presença do Pai, que permanece para sempre no seio do Pai.

Ó São Bruno, “ardente de Amor divino”, atrai-nos à Paz do Pai ignorada pelo mundo, na Alegria do Espírito Santo, e concede-nos exclamar numa vigília incessante: “Maranatha, vem Senhor Jesus!”

Na Solenidade da Natividade de Nosso Senhor Jesus Cristo do Ano de 2003.
Os monges e as monjas de Belém, da Assunção da Virgem e de São Bruno.